O exercício de uma profissão é fruto de uma série de fatores. Normalmente a
sobrevivência vem em primeiro lugar, concomitantemente se conseguimos ob-
ter satisfação emocional e espiritual no exercício profissional somos felizardos.
A profissão médica, diferentemente de outras, não deve visar lucro ou ganho fi-
nanceiro puro e simples. A assimetria de conhecimentos entre médico e pa-
ciente advinda da exaustiva formação acadêmica deve implicar na sedimenta-
ção de padrões éticos rígidos que visem sempre o bem estar do paciente e não
em ganhos patrimoniais exorbitantes àqueles que de alguma forma contratam
ou prestam serviços médicos.
A história da homeopatia brasileira após a década de 70 do século passado é a
história da sedimentação da homeopatia na malha social e da introdução, ainda
que tênue, nas lides acadêmicas.
Os antigos homeopatas em nenhum momento tiveram quaisquer dificuldades
quanto à sobrevivência. Todos eram oriundos de um tempo onde o pagamento
pelo serviço médico era feito quase sempre em espécie pelo paciente e não
existiam intermediários que exploravam seus serviços.
Durante o ensino da homeopatia clássica e constituição das várias entidades
representativas estratégias para a sobrevivência dos médicos foram relegadas
ao segundo plano, visto que bastava uma boa formação para que o exercício
profissional fosse suficientemente lucrativo para garantir a sobrevivência e a
continuação da profissão homeopática.
As associações médicas homeopáticas até o final do século passado preocu-
pavam-se muito mais em sedimentar a homeopatia entre os nossos pares mé-
dicos (CRMs, CFM, AMB) do que com a sobrevivência de seus sócios, mesmo
porque a maioria dos dirigentes era oriunda da geração anterior a dissemina-
ção dos convênios.
A partir do final da década de 90 a maioria dos homeopatas – preocupados
com a própria sobrevivência, passaram a aceitar a intermediação das operado-
ras de saúde.
A homeopatia é uma especialidade exclusivamente clínica. Apesar da criação
do procedimento médico homeopático da repertorização* o valor acrescido à
consulta é atualmente irrisório e nem sempre aceito pelas operadoras.
A homeopatia clássica brasileira encontra-se num beco praticamente sem saí-
da. A epistemiologia e semiologia homeopáticas clássicas requerem que o
exercício profissional, para ser bem sucedido, individualize exaustivamente o
paciente – o que é praticamente impossível de ser feito nos quinze minutos em
média de uma consulta clínica* do convênio (tempo que possibilita lucro real ao
prestador de serviço, mais do que isto pode acarretar prejuízo).
Portanto o empobrecimento do médico sério e consciente é patente. A médio e
longo prazos a homeopatia clássica poderá deixar de existir, não porque seja
ineficiente, mas simplesmente porque não existirão médicos que consigam so-
breviver dignamente com os proventos gerados pelas operadoras de saúde. De
pouco ou nada valerão existirem excelentes cursos ou residências médicas de
homeopatia se não tiverem alunos!
Não podemos cometer o mesmo erro duas vezes!!
O FAO é uma revolução.
Aparentemente e só aparentemente é de mais fácil prescrição em virtude do
diagnóstico medicamentoso ser diferente do homeopático clássico.
O médico de boa formação entende o quão imprescindível é uma anamnese
completa, bem elaborada, com a realização do diagnóstico biopatográfico e in-
dividual. O seguimento miasmático é imprescindível para o acompanhamento
adequado do paciente concomitantemente com a observação das leis de cura
de Hering.
Para concretização desta avaliação – juntamente com os diagnósticos médicos
usuais é necessário TEMPO. Tempo este que as operadoras de saúde não
oferecem e não incluem no seu pagamento a assistência pós consulta (telefo-
nemas e contatos para solução de dúvidas).
A profissão médica é uma profissão liberal. O que caracteriza uma profissão li-
beral é a capacidade do profissional de determinar o valor de seu trabalho com-
putando os custos (aluguel, telefone, energia, secretária, impostos, bens imobi-
lizados, taxas de CRM, sindicato, INSS autônomo, previdência privada, férias,
material de consumo, etc, etc) versus a receita (consultas clínicas).
Um empregado recebe além do salário mensal, férias remuneradas com acrés-
cimo de 30%, aposentadoria, fundo de garantia, etc, etc., e tem em contraparti-
da o seu trabalho pago de acordo com as condições do empregador.
O médico ao aceitar o preço pago pelas operadoras transforma o único bem
que pode vender (consulta médica) em uma commodite – ou seja, independen-
te do valor que venha agregar ao seu trabalho (estudo, especialização, mestra-
do, doutorado, congressos, trabalhos publicados, etc) QUEM DETERMINA O
PREÇO A SER PAGO É O COMPRADOR DO BEM DE CONSUMO (operado-
ra) e não quem produz o serviço (médico).
Deixa, portanto, o médico de ser dono de seu destino e sobrevive em dois
mundos (infernos?), pois não é assalariado – porque não tem as garantias do
emprego e não é profissional liberal - porque não pode determinar o valor de
seus proventos.
Tal situação compromete substancialmente a sobrevivência do profissional,
que paga suas contas aos trancos e barrancos, muitas vezes relegando a apo-
sentadoria e o lazer para segundo plano.
O compromisso maior do médico é para com seu paciente. O acesso da popu-
lação ao FAO através de médicos bem preparados e com condições dignas de
sobrevivência e consequentemente capazes de legar para as próximas gera-
ções a Terapêutica FAO deve ser uma das principais metas desta geração de
médicos que de alguma forma estão introduzindo a Racionalidade FAO na me-
dicina.
O médico, ao tornar-se um médico FAO, deve ter a responsabilidade de com-
prometer-se com esta técnica única e revolucionária a ponto de não abrir mão
de comandar o seu próprio destino como e nunca permitir que seu trabalho
seja objeto de lucro e interferência de terceiros – as operadoras de saúde –
pois, assim como a homeopatia clássica hoje se ressente amargamente desta
interferência, o FAO poderá no futuro ter problemas para se sedimentar junto a
sociedade, devido a incapacidade de sobrevivência digna de seus prescritores.
O grande erro dos dirigentes (meu inclusive) e médicos homeopatas clássicos
foi menosprezar a virulência da submissão aos intermediários da saúde acredi-
tando que devido às características da homeopatia estariam imunes ao mal
que se alastrou na medicina ortodoxa.
O que vemos hoje é exatamente o contrário – a medicina ortodoxa de alguma
forma, através dos procedimentos, está encontrando novas maneiras de garan-
tir a sobrevivência dos profissionais e a homeopatia cada vez mais se fragiliza
ante as dificuldades que se avolumam.
Não podemos deixar que isso ocorra com o FAO!
Não podemos cometer o mesmo erro duas vezes!
Heidwaldo Antonio Seleghini
Presidente da Associação Médica Homeopática Brasileira – 1998/2002
*Repertorização: Durante a gestão 98/02 da AMHB obteve-se junto a Associação Médica Brasi-
leira a introdução do procedimento médico homeopático repertorização na Classificação Brasi-
leira Hierarquizada de Procedimentos Médicos. Originalmente estava classificada com valor 2A
, atualmente 1A . Consiste na tabulação por ordem de importância ou não dos sintomas obtidos
através da individualização do paciente visando o diagnóstico medicamentoso. Utiliza-se com-
putadores para realização do procedimento.
*Consulta clínica: ato médico que consiste em anamnese, exame físico, solicitação de exames
e prescrição médica. Não consta de procedimentos armados ou utilização de aparelhos sofisti-
cados e todo médico está legalmente apto a realizar.