A dor que dói no outro é uma janela de onde me enxergo. É como se por um instante fosse quebrada a minha capacidade de diferenciação. Trabalho com os bastidores da humanidade. Vejo e escuto o que não se costuma revelar, uns nem para si mesmos.
Sou testemunha do sofrimento causado pelo descompromisso com a verdade. Meu ofício é reciclar – ressignificar o dito pelo não-dito, maldito pelo bendito. É através da palavra que bendiz que podemos acender as luzes que ajudam a alma a amanhecer.
Viver amanhecendo é aprendizado de não se perder de vista. Não se deve estender no tempo a duração da noite. Permanecer fechados em cavernas a espreitar sombras não nos prepara para luz embora aumente o anseio pelo clarão. O quanto de claridade uma pessoa suporta?
Restaurar com gotas homeopáticas da compassiva escuta e solidária bendita palavra a esperança, é meu ofício de bem-aventurança, e não à toa minha primeira especialidade é o cuidado com criança.
Crianças aprendendo a falar o que no coração está a pulsar; crianças reaprendendendo a linguagem da essência, é o que tenho tido a oportunidade de exercitar na prática de estar para o outro através do que de melhor há em mim.
E é nos bastidores do Homem que minha vida passa por sustos. O cotidiano me assombra com o quanto de agressividade existe no que humano se diz ser. Uma das mais ácidas é a inveja. Invejar é pior do que cobiçar. Será tão difícil assim o exercício do admirar e lutar para conquistar? A verdade com que a vida de quando em vez me bate na cara é o quanto é muito mais fácil suportar o sofrimento alheio do que a alegria. Nossa alegria só é suportável para as pessoas que verdadeiramente nos amam.
É de costume dizer que reconhecemos os grandes amigos no momento de nosso sofrimento, mas não é verdade. Ledo engano. Os verdadeiros amigos são aqueles que suportam a duração de nossa alegria.
Quantos se chegam para beber do som da minha gargalhada e comer do sabor do meu sorriso? Agora quantos mais são os que enviesadamente chegam e me perguntam como posso ser assim tão feliz? A quantos nutro enquanto tanto incomodo?
Senhor eles não sabem o que dizem nem o que fazem, perdoa-os! Afinal, o que posso fazer se tudo em mim acaba em riso e poesia? O que posso fazer se escolhi entregar-me a vida com resignação e alegria? Peço perdão por mim, que escolhi viver amanhecendo? Carpe diem! Bom dia!
O sofrimento é uma realidade que nos congrega com muita profundidade. Já a alegria é libertária.
Schopenhauer dizia que o sofrimento do outro nos acorda para a verdade de nossa condição. Somos frágeis. Uns mais...! E ao encontrarmos o outro mergulhado em sua dor, é natural que brote dentro de nós a compaixão. Até frente ao inimigo a compaixão em nós desabrocha, e não por santidade, e sim por clareza de nossa própria e tão íntima miserabilidade. O outro abre suas porta e eu me enxergo pelas portas abertas, e pelas cortinas que escondem as minhas janelas, espreito. O outro sou eu. O outro sou eu, também. É-me impossível vê-lo sofrer sem fitar a minha inegável condição de vulnerabilidade.Humano D+! ( adaptado de Denise Espiuca )
Estou lendo esse livro Cartas entre amigos, é lindo demais!
ResponderExcluirLeio e volto a página pra reler e fixar bem.
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