
IMPERMANÊNCIA, GARANTIAS E CERTEZAS
A busca de certezas e de garantias, como forma de estabilidade, esconde a necessidade de controle, presente n a criatura humana, como resposta ao medo e a iminência de perda ( de objetos, pessoas, situações ) daquilo que valore como essencial a sua vida e a felicidade, trazendo sofrimento atroz e angústias inomináveis ao ser humano.
Remascente do desejo territorialista atávico dos instintos animais, que só reconhecem aquilo que os comportamentos condicionados aprenderam como pertencentes ao seu território e assim ao seu espaço de segurança, avança de forma mais complexa na criatura com o advento da razão, mas sem diminuir a sua intensidade, porque uma força não consciente.
O ego constituído e que tagarela sem cessar, teme o seu silêncio, por não reconhecer outra forma de existência que não seja no infinito fluxo de linguagem , como se esse estresse a que se submete também pudesse constituir a assinatura de sua imortalidade. Fomenta pensamentos atrás de pensamentos, fazendo o indivíduo pular de galho em galho mental, como se não pudesse e não tivesse o direito de parar por instantes e observar-se a si próprio e verificar no incessante dançar da natureza outras formas e universos a devassar. Aprisiona o ser, faculta a geração de crenças, para sustentar essa paralisia na forma de movimentar, dilantando suas esferas de ação no comportamento humano, que lhe recebe as injunções doentias e sempre destrutivas.
Inúmeros teóricos da psicologia e das ciências psi buscaram entender-lhe as origens, observando que, a despeito de partilhar a mesma origem do instinto de preservação como uma lei biológica de conservação, ao contrário de robustecer-se nos sentimentos mais requintados, até o encontro com as emoções do amor, hipertrofia-se, como um foco obsidente pela sua única preservação, tornando-se um centro egoístico e parasita das emoções do ser em desenvolvimento.
Essa necessidade de certeza e de garantia nega os princípios da própria vida, que consiste num universo ou em múltiplos universos, que se sustentam a partir de si mesmos, interagindo com o caos existente, as diversas forças que agem, reagem e interagem, aprendendo a sustentar-se e a auto-organizar-se a partir de uma ordem implícita e que se revela, através do jogo das probabilidades como sempre a melhor escolha no continum do progresso. A vida percebe que a impermanência é a constante dos universos e, nesta impermanência se constrói, sem medo de sua degenerescência momentânea, e que lhe faculta encontrar novas formas evolucionárias, mais amplas e mais complexas, quanto belas e úteis a si mesma e aos demais elementos dos multiversos aos quais pertence. Essa capacidade auto-organizadora, negadora voluntária da desorganização ou neguentrópica lança a natureza sem medo ao caminho da própria evolução e seleção, de modo que a emoção básica medo, biologicamente já existente nos seres primeiros da escala, evolve para a forma de preservação e superação dos embates do próprio processo de desenvolvimento, aprendendo as melhores formas e os melhores caminhos, a fim de se sustentar, manter dinamicamente o equilíbrio-não-inerte, a vida.
Certeza, para a física contemporânea, é paralisia e equilibrio é morte da vida.
O movimento, o caos no qual se nasce, do qual se emerge como uma possibilidade e uma rede de possibilidades, eis o conceito contemporâneo da física e da biologia. Nada há certo ou equilibrado, se vivo, e manter-se vivo é aprender esses valores, não negá-los e usar esta corrente ao seu próprio favor, contra a lei entrópica que marca o sistema conhecido como material dentro da visão galilaico-newtoniana.
Muitos indivíduos se sentem angustiados pelo fato de enxergarem a ausência ou a inexistência de certezas e de garantias na vida, sejam nos relacionamentos individuais, como coletivos, seja no trabalho e em suas relações. Isso também surge no desejo coletivo por um fim de mundo escatológico, numa ânsia de punição coletiva por um Deus, por uma natureza vingativa, cansada do parasitismo humano. E essas incertezas atordoam, porque retiram da inércia e nos fazem pensar e repensar no que estrutura nossos medos de incerteza, de instabilidade e de falta de equilíbrio. O que estrutura esse medo ?
Penso que esse medo, ainda que estruturado em reinos primevos da evolução, o que pode ser visitado nas obras do famoso psiquiatra Mira y Lopez, advem da distração ou incosnciência do estado de imortalidade da própria vida. Tememos nossa finitude e o fato de não podermos amanhã estarmos aqui nos condiciona a respondermos negativamente a tudo o que constele esse mesmo princípio ou que apresente o mesmo significante de finitude em nós
Associado ao medo de finitude, temos nossa identificação com essa forma de viver, com nosso corpo e nos confundimos com ele, como se o fôssemos ele e não como se ele fosse parte de nós e das engrenagens que nos constituem neste mundo e isso em muito dificulta nosso desapego a esta forma de viver e a tudo o que a ela se vincula, temporariamente. Confundindo o ser com a máquina biológica que o veste, permitindo-lhe viver nesta biosfera entrópica, fixando-se nas reações que o corpo experimenta, essa percepção corporal confere a alma a sensação de que ela é o corpo e que tudo quanto ele sente é portador da verdade, abrindo espaço para as confusões do apego em termos mentais, como emocionais, porque até que se conscientize do que é, se desvincule e desidentifique das ilusões, promovidas pelas fusão identificativa que a encarnação promove com o ego e com o corpo, a alma já terá sofrido pelo medo de se dissolver junto ao fim das organelas biológicas, instinto esse pertencente ao organismo físico, que possui programação adrede estabelecida para isso. Haverá esse choque ente o instinto biológico do morrer e a incoerência sentida pela alma, tendo como resultante desse conflito o medo como sofrimento da perda e o protesto contra aquilo que se pensa ser capaz de perder.
A vida são incertezas, são oscilações e são instabilidades e deve-se aprender a nadar ao influxo destas ondas, com a tranqüilidade de que a ausência de garantias, dentro e fora de si mesmo são um fato a ser encarado e enfrentado com a tranqüilidade possível. Ninguém ou nada pode oferecer certeza ou garantias, nem uma relação, nem um fato, nem uma posição, porque tudo muda a todo instante, para garantir a evolutividade da própria vida e seus elementos. O apego a posse da certeza adoece o ser humano, levando-o a um estado de insegurança evitável, em um aspecto doloroso da ansiedade, que não o salvará a evidência dos acontecimentos. Com ou sem paz, as mudanças ocorrerão, com ou sem harmonia interior elas terão de ocorrer, porque os seres se modificam, as circunstâncias e os referenciais. Essa mutabilidade de tudo e essa inexorabilidade deve constar na pauta de cada um não como um arauto da confusão, ou como a certeza de que não devemos nos vincular a pessoa ou a coisa alguma, mas sim, para entendermos que cada um de nós pertence a uma vida maior e auto-consciente e que temos um propósito a identificar a cada instante, em uma orquestra bem maior. Esse fato também colabora, para entendermos que não há separação possível, nem afastamentos, pois uma vez vinculados, as teias dessas vidas se esticam, se propagam ao infinito, desenhando novos liames energéticos, de modo a unir toda a família humana, animal e vegetal, numa única família na natureza imanente e transcendente do Deus em nós, como o concebermos.
Somente assentado sobre a própria imortalidade o indivíduo logra divisar a indestrutibilidade de tudo quanto haja construído de bom, de belo e de verdadeiro, de modo que não deve temer as aparentes separações, desvinculações e mudanças, sejam quais forem, pois, tão logo ocorram, traduzem uma mudança de enfoque que a vida lhes pede, a fim de grajearem mais altos patamares de aprendizado e consciência.
Mesmo com o fenômeno biológico da morte e a disjunção corporal, a vida apenas muda de faixa vibratória, nos irmanando com entes em esferas transcendentes as que vemos e percebemos com nossos parcos sentidos, modificando e dilatando os sentimentos na direção de um amor-liberdade, de um amor-cocriador, vencendo a paixão-prisão, último resquício de nosso medo de perda.
Não perdemos pessoas, não perdemos almas, perdemos apenas coisas, objetos. Nem as experiências são perdidas, porque caminham dentro de nós, em cada ato, gesto, pensamento.
Não devemos nos privar da alegria, nem tampouco da oportunidade de amar a quem quer que seja, pois, mesmo que não permaneçamos ao lado sempre, estaremos para sempre vinculados as malhas desse amor maior e concreto, muito mais do que nos permitimos – pelo medo – de sentir e viver.
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